Quem matou Ana Mendieta?

-Morreu foi?

-Foi…

-Morreu de que?

-De queda, 34º andar

-Suicídio?

-Não se sabe… Tava brigando com o marido

-Será que ele a jogou?

-É possível. Ele parece violento, uma cara meio mal-encarada. Mas ela era uma histérica também, nunca se sabe…

-Vai que tava bêbada na hora e escorregou

-É possível… Esses artistas só vivem bêbados, se drogando…

-Ela era nova, né?

-36 anos. Bonita…

-Mas tinha uma coisa de querer ser feia…

-Esse povo é artista, eles querem ser diferentes

-Ela tinha umas manias de se sujar de sangue de porco. Eu acho errado.

-Pra que isso?

-Ela dizia que era para denunciar violência que sofria. Uma vez se amarrou, jogou sangue de porco no próprio corpo e ficou gritando. Chamou isso de arte. Acho errado! Pra que matar o porco??

-Mas ela fez isso pra que?

-Ah… Teve uma moça na faculdade dela que foi estuprada e assassinada. Aí foi o jeito que ela achou de falar disso. Mas acho errado. Ela era gostosa, mas maluca das ideias.

-Esse povo das artes sempre maluco

-E o marido?

-Tá em choque, né? Os vizinhos dizem que ela antes de morrer gritou muitas vezes “não”… Foda. Pode ser qualquer coisa

-Qualquer coisa?

-É… Vai que ele queria transar

-E forçou?

-Homem é foda. E ele tem mó cara de mal. Ela também é doida de casar com um homem desses. Uma mulher bonita daquela.

-Era bonita mesmo… Latina, né?

-Cubana… Gostosa como um charuto e doida por banana.

-Comunista?

-Doida daquele jeito só pode ser. Mulherzinha violenta. Vivia usando sangue de porcos. Para a arte. PORRA DE ARTE CARALHO NENHUM! ELA SÓ SE JOGAVA NO MEIO DOS MATOS E DIZIA QUE ERA ARTISTA!

-Aí é foda, né? Uma pena ter morrido cedo.

-Ah ela era histérica… Histéricas não vivem muito. Matam ou morrem antes dos 40.

-Isso é verdade…

-O marido dela faz uma tal de “poesia visual”

-Que merda é isso?

-E eu lá sei? É uma doideira que ganham dinheiro em cima de trouxa

-Esses hippies são tudo uns charlatões que não toma banho

-Muito mais sincero um agiota que promete te matar caso não pague a dívida

-Muito mais

-Qual o problema das mulheres bonitas, hein?

-Como assim?

-Todas se matam

-A Ana se matou?

-Se matou, foi empurrada. Que diferença faz? Morreu de forma trágica

-Vai que doí ser bonita. Muito homem em cima delas, muita mulher invejosa.

-Devem ser deprimidas para compensar o mal que fazem pro coração do homem mediano, como eu

-Mas você é feio

-Falou o lindo

-Sejamos sinceros, você só consegue comer uma mulher bonita se ela tiver apagada

-Saiba que 70% das mulheres que já comi estavam acordadas

-Acordada e completamente bêbada não conta

-Tu só transa com mulher sóbria?

-Claro que não! Mas só transar com bêbada é foda.

-Mulher muito bêbada é melhor, cara! Elas não sabem qual o buraco do cu e qual o da buceta. Quando veem já tão dando o cu, aquele gemidinho de dor confuso.

-Você é doente!

-Vai dizer que não gosta

-Não, porra

-Tenta. É bom

-Prefiro não, vai e traumatiza. Mulher é foda… Qualquer coisa se deprime.

-Isso é verdade. Mulher bonita qualquer coisinha se mata

-A Mendieta deve ter se matado

-É minha teoria.

Atenção para o refrão

Terminei com o Carvalho. Na verdade, o Nelson que terminou comigo, uma noite após eu confirmar, pela milésima vez, que o amava exageradamente, mas tudo bem. Acontece. Achei que mais nada poderia ser positivo esse ano, porém estou aqui me maquiando em cima da hora por uma mulher sagrada. Ligando para mamis gritando “EU VOU VER GAAAAAAAAAAAAL” como minha filha? Ganhei num sorteio. Não sabia que você gostava de MPB.

Papis, afasta de mim esse cale-se.

Eu precisei ir em um workshop sobre música, lá foram sorteados alguns ingressos. Bem, consegui. Eu não tenho ideia de que vestido usar. Mas vou de vestido. Eu vou pronta para casar! Eu não quero saber se aquela mulher tem três vezes minha idade estou apaixonada!! Ai, e eu olhei a setlist dos últimos 5 shows em nenhum ela tocou Vapor Barato. Será que ela toca hoje? Que ela toque qualquer coisa! É DE GRAÇA!!

E eu vou de rasteirinha. Nem quero saber!!! Chic, sim. Porém, confortável acima de tudo. E batom vermelho. Eu não vou beijar na boca mesmo. Ai meu deus do céu VOCÊ VEM? QUANTOS ANOS VOCÊ TEM? Se eu morrer hoje morrerei feliz! E que livro cabe nessa bolsa? Pouts… A Ordem do Discurso. Se eu fosse um homem seria o estereótipo do esquerdomacho.

23 minutos para o show começar eu posso olhar todas as pessoas com, pelo menos, 5 anos mais que eu nesse espaço, posso ficar no celular conversando com o Nelson, torcer que um homem bonito tenha ingresso exatamente para o meu lado e puxe papo comigo e… Uma senhora com cara de rica sentou ao meu lado com a filha. Me resta a última opção ler Foucault.

-Oi! Tudo bem?

Deus existe e tem divinas tetas. Um homem bonito sentou do meu lado e está puxando assunto.

-To bem também. Ansioso pro show. Me chamo Eduardo e você?

E ele tá rendendo papinho. Recém-solteira recebendo papinho enquanto aguardo um show de Gal. Eu to no céu.

-Terapia é ótimo… O que você quer que ela cante hoje?

-As mais famosas mesmo. To bem ansioso por Vaca Profana. E você?

-Eu quero que ela toque Não Identificado

-Não conheço essa

-É a que abre Bacurau

-Eu não vi Bacurau

-Como assim você não viu Bacurau?

Ele justificou bem. Eu to me apaixonando! E me falou o que ele gosta de fazer para se divertir, comentou alguns shows que foi e eu também fui, vai e é o destino nos encontrarmos. Pode ser.

-Eu gosto de show da The Baggios de graça!

-Ah eu também gosto. Viu que o The Baggios tá aqui?

-O Julico?

-O Principal… Ali ó

É o Julico. E não vou negar que me arrepiei quando a gente se encostou. To muito sensível. E bem as luzes se apagaram, a banda entrou. Ela vai surgir a qualquer instante. Meu deus.

E começou uma guitarra rasgando. E uma silhueta que fez todo mundo gritar. De repente todos os instrumentos param

NÃO SE ASSUSTE PESSOA

Voltam.

Param.

SE EU LHE DISSER QUE A VIDA É BOA

-Meu deus!

-Massa, né?

-MUITO!

Sorrimos um para o outro em Vaca Profana. Eu tinha esquecido como é gostoso o clima de flerte.

YES MY EYES GOLOOKINGFORFLYINGSAUCERS IN. THE. SKY.

Poxa, Roberto Carlos e o Eduardo não tá cantando. O Nelson aqui estaria enlouquecendo com essa versão. E eu preciso dar o braço a torcer pro Rei (e pro Carvalho) essa música é muito boa.

Ela já não gosta mais de mim

Mas eu gosto dela mesmo assim

QUE PENA

QUE PENA

Merda. O Nelson ama o Jorge Ben. Mas eu não vou chorar! Eu vou é cantar, pois A VIDA CONTINUA e acho que não vai ser hoje que ficarei sozinha no meio da rua. Não se eu continuar sem ver o olho desse menino de tanto que ele sorri olhando pra mim.

NÃO! Sua Estupidez acabou o clima com o Eduardo! Não tem como não pensar no Nelson e como ele foi tão… estupido. Eu não vou chorar agora. Merda, espero que o Eduardo não esteja olhando pra mim. Mas PORRA, NELSON! NÃO PRECISAVA! Cabrunco! Eu amo esse homem. Eu amo! Merda! O rímel deve tá todo borrado. Merda. Ok. Eu vou respirar fundo agora. Vai dar bom. Fotografa, Manuela. Fotos.

-Tenta ajustar

-O que?

-Para qualidade da foto

-Oh sim, muito obrigada

-O teatro tá bonito depois da reforma, né?

-Muito

Não tá igual, mas consertado? Esse povo de arquitetura…

Eu vou fazer uma mágica

-QUE COISA LINDA!

-Essa luz tá ótima

RETIRA O VÉU E FAZ CHOVER!

SOBRE O NOSSO AMOR

Ótimo momento para segurar minha mão, Eduardo. Enquanto se esquece de mim, lembra da canção: Bob Dylan – Hurricane, mas para quem mesmo eu deveria lembrar? Ah sim… Oh lua bonita no céu, molha o nosso amor. Pior que a lua tá linda mesmo hoje.

-Acabou?

-Acho que sim

-Eu quero mais!

AÊÊÊÊÊ

A gente agora vai tocar uma música que faltou no DVD, mas por esquecimento. Essa mesma! Na situação política atual não pode deixar passar

NÃO ME CONVIDARAM

PRA ESSA FESTA POBRE

-Tá parecendo carnaval

-Graças a deus, né?

-BORA DANÇAR?

Eu to enfeitiçada. Enfeitiçada. Quero dançar com você… Ah não me chamou pra dançar vou dançar sozinha mesmo. Bombas na guerra magia, ninguém matava ninguém morria.

-Até cansei aqui

-hehe

-Gostou do show?

-Foi muito bom! E ela elogiou muito a estrutura do teatro

-Siim! Tá incrível, né?

Das coisas que eu funcionava com o Nelson é que eu entendo a área dele. Não preciso forçar a barra. Inclusive xo mandar uma mensagem pra ele.

-Eu moro aqui perto, to pensando em ir no açaí na frente de casa comer alguma coisa. Não quer ir comigo? A gente pode conversar mais.

-Ótimo

E deixa eu sentar e deitar a cabeça no ombro dele.

-Senti tanta falta de Vapor Barato

-Mas a experiência foi muito boa

-Sem dúvida

-Meu uber tá a dois minutos e o seu?

-Ai não to conseguindo identificar que lugar é esse que ele tá, você que é arquiteto que rio é esse?

Ele pegou o meu celular e chegou na mesma hora uma mensagem de “Benzinho (2018)” que dizia “Isso é ótimo, Manu. Bom retorno pra casa.”.

-É aquele rio do Orlando

-O do São Conrado

-Não. Quer dizer é sim. Meu Uber chegou vou indo

Abraço sem jeito.

-Foi ótimo te conhecer. Até!

-Até…?

Respondi o Nelson. Graças a deus meu uber chegou.

-Quer que ligue o ar?

-Prefiro desligado

-Tem preferência de música?

-Não tá ótimo

Meu olhar em festa se fez feliz, lembrando a seresta que um dia eu fiz. Por onde for quero ser seu par.

Ainda bem que deu errado com o Eduardo.

Quarentena

Sabe aquele trecho de Tabacaria que o Pessoa fala

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)

Se não sabia agora sabe, leitor. E voltei a ler aquele meu amado escritor. Mas não te enganarei, meu caro leitor, serei uma narradora que só expõe os fatos e menos paranoica. E o que queria falar nem era disso. É que estou no meu quarto. O dia inteiro no meu apartamento. Não aguento mais.

Minto em dizer que estou o dia inteiro em casa. Eu torço para precisar comprar algo na padaria. Eu só quero ver o sol de longe da minha varanda. Eu sou uma pessoa solar. Ou sou lunar. Não sei, só quero não estar em casa.

Antes da quarentena eu estava pensando muito em janelas. Será que as pessoas já repararam no meu quarto? Possivelmente me viram nua. Ao menos parcialmente. Talvez tenham me visto cantando loucamente. O que será que pensaram? Gostaria de saber, mas isso me faria mal.

Agora com a quarentena nas vezes que saio, mesmo que por necessidade (fome ou falta de ver o mundo). Tantas janelas com pessoas dentro. Espero que elas estejam dentro. Elas podem me olhar. E quando olham o que pensam?

E você, leitor, como você acha que sou? O que você pensa de mim? Possivelmente que sou repetitiva. Repeti nos últimos textos uma mesma indignação seguida por uma mesma piada.

É a saudades. Várias saudades misturadas. Minha quarentena se baseia nisso. E chocolate. E 10 minutos de ioga, às vezes. E iniciar cursos e mais cursos. Meu Currículo Lattes terminará cheio, mas não sei se terei algum resquício de alma. Mantenho a escrita para arriscar ainda ser humana ao final de tudo.

Permaneço esperançosa. Uma verdadeira amante de utopias e virtudes e num tempo sem deus ainda crente. Louca. Mas acredito que depois estaremos melhores. Repararemos nos erros e reconstruiremos nossas sociedades com mais afeto e justiça. Mesmo com tantas feridas expostas.

Tropicalista

Eu amo fazer caminhadas. Tipo longas caminhadas sem rumo. Adoro sair de casa sem hora pra voltar com: livro, óculos, garrafinha de água e 5 reais; numa ecobag de congresso. Normalmente escolho como ponto de parada o lugar mais bonito no caminho que decido espontaneamente seguir e naquele lugar admiro e descanso a vista. Alternando com a leitura de qualquer livro que estiver lendo.

Um dia em específico resolvi ir para uma prainha que recentemente voltou a ser ponto turístico, o caminho da minha casa até lá é muito belo. E curioso! Há muito verdes dos mangues em pedaços intocados, em frente arranha-céus, ao lado 4, 6 pistas de carros (engarrafadas).

Resolvi no meio do caminho sentar num banco. Sentir o cheiro da água salgada do mangue misturada ao asfalto. Eu gosto dessas coisas meio personagem de filme francês recente. Não me recordo da faixada do prédio, sou péssima memorizando arquitetura, mas lembro perfeitamente seu nome Di Cavalcanti. Eu caí no riso ali sozinha.

Lembrei na primeira vez que reparei no nome desse prédio conversei super eufórica (revoltada) com o Nelson, pois não podia aquilo. O metro quadrado mais caro da cidade e prédios com nome de comunistas!! O Di era comunista, né? O Nelson não sabia, me disse que quem curte mais o Di Cavalcanti sou eu, ele mesmo conhecia somente do curta que viu numa aula de ética. Que acabou me confirmando, pois o documentário problemático com fotos do cadáver (hoje em dia no Youtube) foi gravado por um artista comunista que não daria “Bom dia!” para um outro artista que não fosse, ao menos, perseguido pelos milicos. Eu sinto falta do Nelson. Ainda somos ótimos amigos, mas sinto falta de planejar um futuro ao lado dele.

Quando cheguei a prainha me sentei numa sombra e me concentrei no livro. Era incrível como apesar da avenida eu conseguia só ouvir as ondas. E se eu acertasse o ângulo do olhar nem repararia que há uma cidade imensa logo atrás de mim. Não falei antes, equívoco meu, o livro que levei nesse dia era sobre morte.

Morte, morte mesmo. Tipo aquilo que se faz ao final da vida. Fim, fim mesmo. Comecei a ler o último capítulo quando um dos protagonistas descobre que está com um câncer em estado avançado. Marca de encontrar um amigo, que pergunta se aquilo foi um castigo, algo bem trágico.

Em algum ponto desse capítulo o personagem vai à praia, descreve o mar e fala sobre ser, muito possivelmente, a última vez que ele está naquele local. Abaixei o livro e observei as ondas, senti a brisa. Era gostoso estar ali. Também me debrucei a refletir sobre a morte. É tranquilizante aceitar o fim, mesmo que por alguns minutos.

No retorno já estava escurecendo. Não percebi o céu ficando breu, mas as luzes dos postes acendiam lentamente anunciando a noite. Voltei a passos lentos observando o verde do mangue e pessoas turvas na frente sobre bicicletas que passam tão rapidamente. Tudo sempre é impressão.

Na volta me sentei em outros bancos, mas sem olhar para os prédios a frente. Queria ler só mais um pouquinho do delicioso livro. Cantarolei Lança Perfume. Acabei só o terminando após chegar em casa sentei no chão para lê-lo. Eu não estava suada o banho esperaria. O suor só veio do cuscuz que comi com leite no jantar. Não dancei, mas gostaria de ter dançado. Talvez faço isso amanhã.

Impressões

Costumo começar textos descrevendo alguma coisa em mim. E essa foi uma descrição, então já posso dizer que adoro olhar os prédios, amo pensar sobre como cada pedacinho ali tem uma vida diferente. Esses dias voltando pra casa vi do outro lado da rua uma menina dançando. Talvez fosse alguma coreografia de k-pop. Olhei durante um tempo morrendo de medo de que aquilo a intimidasse de alguma forma, mas ela não reparou em mim. Me lembrou um texto que escrevi há uns anos enquanto fazia academia. Lembro de o texto ter sido escrito nos 20 segundos de descanso entre os aparelhos, mas não lembro o título que dei. Deve ser algo com “Não feche a janela”.

Sempre reparo nos prédios, sempre olho, mas não consigo lembrar deles. Precisei reparar nos prédios para descer de um ônibus durante um curso. péssima em localização como sou errei várias vezes. Seguidas. Eu sei que são diferentes, tem universos diferentes cada um naquela caixinha minúscula e gigante, sei que foram desenhados por pessoas diferentes, mas sei lá… Pra mim concreto é sempre concreto até que eu crie apego pelo lugar, mas não crio apego por prédio de burguês com nome de Di Cavalcanti.

Di. Imagino que ele ficaria muito chateado com isso. Gosto das obras dele, mas sei pouco da biografia. Imagino que fosse comunista, nem pelas suas obras, mas pelo Glauber Rocha ser seu amigo a ponto de ir ao seu enterro. Não imagino Glauber dando bom dia a algum artista que não fosse filiado ao PCB. Eu sou o contrário, pois gosto demais de dar bom dia. Sempre dou bom dia/boa tarde/boa noite. Nem sempre foi assim, houve uma época que muitos me cumprimentavam com um ritmado bom dia que me deixava desconfortável. Sei lá olhando para minhas pernas. Depois senti medo de falar “bom dia” após dar “bom dia” às quatro da tarde. Eu tinha acabado de acordar e fui comprar remédio na farmácia.

Comprar é algo que deixa a gente vivo, né? Parece que nossa produção vale a pena finalmente. Mesmo o dinheiro nunca sendo meu. E nossa nunca mais comprei remédio! O que tá tudo bem, é ruim usar remédio. Apesar de que… To há três semanas com náusea constante, mas nem penso em medicar. Eu sei o que causou. Saber não sei na real, mas sei que é por eu estar deprimida e com dificuldade para comer. Só não sei o porquê estou deprimida dessa vez.

Para desviar disso tentei fazer uma aula de ioga. É estranho o fluxo de consciência que veio. Pensei em épocas da minha vida que nunca refletia sobre. Misturei fases muito distintas de mim. E até eu mesma sou muito diferente nessas fases. Tentei pensar em um padrão mesmo, talvez sempre tenha sido olhar pro céu. Pensei naquela frase do Caetano (traduzida) enquanto meus olhos procuram por disco voadores no céu. Mas houve uma época que eu morria de medo de ETs. Nem foi assistindo Sinais do Shyamalan, foi vendo o Fantástico mesmo.

E argh. Ando tão deprimida. Eu fico tentando fazer as coisas, tentando principalmente comer. Eu vou num supermercado, lanchonete, padaria, outra padaria e não encontro nada. Eu procuro, eu tento, me esforço. Juro que me esforço, mas ando blasé com isso. E eu sei, eu sei, é perigoso, já parei em hospital várias vezes num mesmo mês por conta disso, já perdi as contas de quantas vezes deixei de menstruar e/ou tive anemia, não aguento mais ter crise de ansiedade procurando algo para comer. Mas argh. É entediante comer.

No último dia internacional da mulher não recebi nenhuma mensagem bonitinha. Eu tenho meus ascos com isso também, uma problematização a menos. Nesse dia eu também fui ao teatro. Tinha almoçado pouco, não comi antes de sair e iria demorar ao menos umas três horas até chegar em casa. O carinha da pipoca na porta disse que não tinha pipoca. Não que faria daqui a pouco, disse que não tinha. O único lugar perto era tão longe e perigoso. Voltei sem comer. O menino que guardou minha bolsa pediu que a amiga dele trouxesse bolo. Até a amiga dele chegar a pipoca abriu e o moço me ofereceu, não senti confortável em recusar. Não gosto de recusar. Dois desconhecidos me deram um bolo de banana com canela que foi meu jantar.

Não ando pensando muito, nem pedindo ajuda, tão pouco rezando. Viver tem sido um monte de concreto em volta com árvores recém arrancadas e muito calor, mas a lua também está linda esses dias. Por dentro do concreto há vida, às vezes, por outras vezes é preciso olhar nos espaços vazios entre tanto tijolo e ferro. E ao final do texto e tanta descrição ainda sei muito pouco de quem sou.

Penso em desistir de tudo que venho concretizando, penso em plantar parreiras no litoral nordestino e cuidar delas como filhas recém-nascidas. Talvez estudar aquarela e fazer um quadro tal qual os impressionistas.

Mas eu tento

Eu não tomo café. O que é estranho, pois sou totalmente uma pessoa cafeteria. Aquela que sai de casa com livro de poesias na bolsa e se senta numa livraria e pede um bolo de banana com um café. Mas eu não gosto de café.

Às vezes saio com amigos para cafeterias. Uma coisa bem indie que fica super legal no Instagram. O ambiente parece instigar o tipo de conversa que costumo sustentar. Falar de arte de vanguarda. Eu adoro vanguardas. Eu tenho três assuntos centrais: homens, arte e política. Por vezes misturo os três, comumente falo até dois.

Isso me lembra que também não bebo. Eu já bebi (bastante), mas mesmo naquela época não tomava cerveja. Eu sou a pessoa que bate na mesa explicando fascismo no bar às 4 da manhã. Sóbria.

Voltando ao não beber café… É um dos motivos que só durmo na casa de pessoas que tenho confiança e intimidade. Imagina acordar na casa de uma pessoa que mal conhece e ela oferecer café ao acordar. Como falar para um semi-conhecido “Cê tem um nescau, não?”.

E sim eu já tentei tomar café. Tentei até ir na cafeteria #Tumblr uma vez. O atendente super fofo conversou comigo e me jurou que o café de lá eu não iria achar ruim. Ele pagou um café pra mim. Tomei o primeiro gole de costas e ao virar para agradecer ele falou “você não gostou, né?”. Eu juro que tentei sorrir como quem tava gostando. Sou muito expressiva e péssima mentirosa.

E nem era café preto super amargo. Era café de máquina do que meu irmão toma. Meu irmão também não gosta de café, mas ele toma expresso. E até me incentivou a tomar. Esse café é muito bom, nem tem gosto de café. Talvez a gente ainda seja meio infantil. Eu tinha em mente quando criança que ser adulto tinha ligação com tomar café.

Eu e meu irmão temos algo bem infantil. Conversamos bem com crianças. Ele levou isso como trabalho e é pediatra. Eu faço muitos trabalhos com adolescentes. E chamo os adolescentes de “galerinha” algo bem Show da Xuxa. Porém, com jovens cumprindo sentença em semiliberdade.

Minha bebida favorita é achocolatado e ontem revi Frances Ha. Há inocência e melancolia de manter vivo um lado infantil. E me comportar naturalmente como personagem de um filme indie de 20 e poucos anos que não sabe lidar com a vida adulta.

Dividir a cama e lanchar de madrugada

-Mozi, tá dormindo?

-Não, Ma

-É que eu quero pão com ovo. Mesmo sendo… Três e quarenta da madrugada.

-Faz

-Eu vou fazer, mozão. Eu queria te falar que vou comer pão com ovo

-Ovo é bom, Ma.

-Nossa eu também adoro ovo! Na real faz tempo que não como ovo. Pão com ovo é gostoso, né?

-Não coloca ketchup benzinho

-Não, amor! É peru que eu comia com ketchup. Lembra que eu te contei? Foi uma semana comendo peru com ketchup às 2 da manhã.

-Freudiana!

-VOCÊ ME RESPEITA, MENINO! Sabe que eu prefiro Jung…

-Sim, virgem! Eu lembro

-É amor, eu sou de virgem, você de peixes, teremos filhos… Que não sejam de gêmeos…

-Gêmeos não. É muito trabalho e gasto

-Né, mozi? Imagina conseguir fazer a criança ser decente com um signo desses… Absurdo.

-Absurdo demais

-Amor, vou fazer o pão agora, viu?

-Salsicha?

-Não, bem! Eu não como salsicha, lembra? Quer dizer… AI QUE ASSUNTO FREUDIANO!

-Fálica!

-Como se você não fosse, né? Safado…

-Sou safado sim…

-Agora eu vou comer, viu? Já volto, amor

-Bom banho.

-Cê tá dormindo, Nelson?

-Não… Eu to completamente acordado.

-Amor, vou comer cachorro-quente, viu?

-Eu gosto sim, Manu

-AMOR EU ODEIO CACHORRO-QUENTE!

-Também odeio político crente, Manu.

Não me leve a mal.

 

-Faz muito tempo que você tava na portaria?

-Ah… Uns 30 minutos, mas tudo bem, tava dormindo, Rafa?

Ele voltou para mim e sorriu “estava com saudades de você’. Eu quis beijá-lo, tentei, mas ele é mais alto que eu. Ele colocou a mão no meio das minhas costas e riu. Fiquei envergonhada e ele passou o dedo no meu nariz falando que eu tinha ficado vermelha, abriu minhas pernas com a perna dele. Dei um sorriso safado e entramos no elevador.

-Como foi o sarau?

-Umas poesias ruins, mas o Heitor fazia valer a pena

-Heitor é aquele amigo da faculdade?

-Não, não é um que conheci em 2011. Ele mora em Natal, nunca mais ele tinha vindo e amanhã cedinho vai embora

-Ah…

-Eu admiro tanto meu amigo! Ele é um cara foda pra caralho! Além de ser lindo, cheiroso, gostoso, intelig

-Você deu pra ele?

-NÃO! DE FORMA ALGUMA!

-Deveria ué

– Ele é gay!

-Oh

Ele mora no 12ª andar. Até lá não falou nada e eu cantarolei “Ando Meio Desligado”. Entramos no apartamento dele.

-Quer jogar?

-Hm quero!

Jogamos jogo da velha, quem perdia precisava tomar um shot de um drink que tínhamos inventado na adolescência. Vodka com 12 gotas de vinho. Dessa vez foram 13 em homenagem ao Partido dos Trabalhadores. Eu perdi. 8 vezes seguidas. Enquanto jogávamos ele falou mal de alguns dos meus amigos. Concordo com ele. A maioria realmente não entende que sou sensível. Demais.

-Mais uma rodada?

-Se eu perder mais uma vez ou eu dou para você ou pulo da janela

-Aceito o risco.

-Eu já cheguei aqui um pouco bêbada… – Disse deitando no sofá

Ele colocou a mão pela fenda do meu vestido. Me olhou com um olhar “pidão” e sorriu.

-O que você quer?

-Você sabe o que eu quero…

-Como você quer?

-Como você preferir

-Posso te chamar de meu bem?

-Claro, minha querida.

E foi ótimo. Tranquilinho, perfeito, gostoso, carinhoso. Achei que não fosse conseguir dormir de tamanha alegria, mas ele alisava meu braço e ficávamos nos olhando só rindo. Sonhei algo estranho. Eu estava numa biblioteca com o Rafael e um cachorro que era nosso. Andávamos pelo lugar, mas o espaço não parecia fazer sentido, sempre que virávamos parecíamos voltar a entrada e se seguíamos reto esbarrávamos com a mesma estátua da Dália Negra morta. Em algum momento decidíamos olhar para os lados e ver qual sessão estávamos, era a sessão de arte. Ele pegou um livro de Picasso e eu um da Frida Kahlo. Sentamos no chão e lemos até que eu acordasse.

Quando acordei ele já tinha levantado. Peguei minha escova de dentes na bolsa e vesti meu vestido. Fui ao banheiro e confesso ter dado uma olhada no que ele tinha enquanto escovava os dentes. Depois fui à sala esperando um café da manhã, mas ele jogava vídeo-game enquanto comia biscoito.

-Tem suco de morango na geladeira, quer?

-Tenho alergia

-Eu só vou ter esse biscoito, mas você tá de dieta.

Eu quis dizer que não estou, mas talvez fosse um aviso dele que eu estou engordando.

-Eu como em casa.

Eu disse e esperei que ele sugerisse comer na padaria do outro lado da rua, pedir comida, fazer um ovo, ir para minha casa. Qualquer coisa que ele dissesse que ficaríamos juntos, mas não pediu. Fui até o quarto peguei a minha bolsa e saí. Quando cheguei perto da porta ele se levantou. Me deu um beijo e apertou minha bunda, abriu a porta e pediu o elevador. Voltou, me deu tchau e fechou a porta. Consegui o ouvir a trancando. Não aguentei esperar e desci de escadas. Só percebi que tinha esquecido de chamar um uber na portaria por isso voltei a pé para casa.

1,5 km

9 da manhã de um domingo

32º

Ressaca.

Respondi o storie que o Rafa postou na terça. Ele visualizou, mas não me respondeu. Era uma pergunta. Hoje postei um #TBT com um amigo de faculdade. Ele respondeu. Me chamou para tomar um chopp. Ainda não respondi. Espero que ele não me leve a mal.

Distrações

A cama está muito bagunçada

Eu não tenho condições de ter feito isso sozinha

Eu tenho absoluta certeza que o Alan dormiu aqui no ontem e já foi

Inclusive deve ter camisinha no lixo do meu quarto!

Tem…

Muitas

Risos.

É estranho que sempre que acaba eu esqueço do que houve

Só lembro por ele deixar sempre tudo meio fora de lugar

Parece que ele sai daqui fugido

Como se fizesse algo errado.

Hoje é domingo?

É domingo…

Ele vai ver o jogo do Flamengo com o pai

Por que eu sei disso?

Eu estou o tempo todo me perguntando se me apaixonei pelo Alan

Me pergunto: Mariana tem certeza que isso tá dando certo?

E o pior é que está

É estranho.

Estamos transando há… Algum tempo e não nos apaixonamos

Eu tinha tanto medo de ser igual a um filme

Não foi.

E agora tenho que arrumar a casa

TÁ TUDO FODA DO LUGAR

Fora

FO-RA

FORA TODO MUNDO! MUDA BRASIL!

VOLTA PETÊ!

Eu preciso arrumar essa casa e arrumar um lugar para jogar tanta garrafa de cerveja

Preciso reciclar tudo aqui nessa casa na verdade

E começas a usar o canudo de metal que ganhei no trabalho.

Eu acho que vou baixar a continuação do filme que vi ontem

Era legalzinho, um romance gostosinho

Before alguma coisa com sol.

Ou eu deveria baixar e esperar o Alan na próxima vez que nos encontrarmos

O que você acha, leitor?

Gostando de histórias românticas

E odeio a água do café demorar para

OH

Eu coloquei a água, mas esqueci de ligar o fogão!

Acabei me distraindo com isso de inventar amor por algumas horas

E não me sentir exatamente vazia por isso

Eu deveria me sentir mal

Ou a culpa é construção social?

Se for olhar quase tudo pode ser construção social

Ainda bem que sou descontruída.

AARGH!

Não sou desconstruída suficiente para café sem açúcar.

Amizades e controle

Estava conversando com a minha terapeuta sobre a Ana

“Conversando”

Não se conversa com terapeuta, se paga por isso.

Ela disse que tenho me afastar da Ana, que nossa relação está me destruindo

Um absurdo!

A Ana é a minha amiga mais antiga, temos mais de 10 anos juntas

E bem, ela é a única que permanece ao meu lado independente das adversidades.

Não importa o motivo da minha ansiedade

Não importa o motivo que eu estou deprimida

A Ana inclusive me recorda os motivos dos meus estresse

Uma excelente amiga.

Ela me fala as verdades que ninguém mais quer dizer

Minha terapeuta manda ignorá-la, mas nunca discorda ativamente

Ninguém discorda ativamente dela

Acho na verdade que todos concordam.

Ela por exemplo me falou que eu nunca poderei ser mãe

Disse que se eu tentar de forma biológica ela não vai aceitar

E está certa! Eu também nem quero isso de transformar meu corpo tanto

Ela também me disse que não vale a pena eu adotar

Eu não tenho estabilidade emocional e iria ensinar a qualquer um que conviva comigo péssimos hábitos.

A Ana concorda que tenho alguns mau-hábitos

Mas considera alguns viáveis

Também acho.

A Ana nas últimas semanas tem insistido bastante que eu faça exercícios

E eu to caminhando

Caminhando

Caminhando

Até quase desmaiar.

Mas nunca desmaiei

E ela sempre me recorda que é por falta de hábito

Tanto tempo parada, sabe?

Acho que minha terapeuta não acredita que a Ana seja minha amiga

Não que ela possa julgar isso, mas se ela julgar acha a Ana legal demais para mim

Alguém como eu não teria uma amizade dessas.

Eu vejo as outras meninas que a Ana já foi intima

Ah… Elas são legais, sempre foram mais legais que eu

E bonitas

Todas são lindas.

O não ser bonita me obriga a continuar amiga da Ana

E eu querer continuar

Se eu quisesse teria deixado essa relação há tempos!

Eu quero ficar!

Escolho ficar

A vida não é escolhas?

Somos condenados a liberdade

Eu escolhi me relacionar com a Ana

Eu me obriguei a ficar com ela

Eu quis ela ao meu lado

E a mantenho comigo.

Foda-se o que a minha terapeuta ache

Se eu achasse que a Ana me faz mal já teria ido embora

Mas ela me faz bem

Bem como ninguém.

Meu deus como ela me suporta mesmo com todas essas pseudo poesias

Só sendo uma boa amiga mesmo.

Eu vou sair da terapia e abraçar a minha relação com a Ana

Eu saberei se algum dia nossa amizade for mal

Está tudo sob controle.